“…Disse o preto velho griot olhando em direção a sua roça, como se tivesse encarando o além. E, levantando-se de um pedaço de tronco de árvore em que estava sentado, falou:

— Vamos, meu jovem, hoje temos muito trabalho e será melhor começar antes do sol ficar forte. Hoje ganhei um importante ajudante me dado pelas mãos do destino, para plantar as Três Irmãs.

— Três Irmãs?! — Exclamou N’zambi sem nada entender.

— Venha e você entenderá. — Disse o preto velho.

Juntos se levantaram. Djeli pegou algumas ferramentas e caminharam até um campo de terra avermelhada que tinha no fundo da casa. E disse:

— Veja essa terra como está tão dura, precisamos quebrá-la e afofá-la.

Começaram a trabalhar e araram toda a terra com suas picaretas e enxadas. Depois adubaram toda terra fofa com esterco de galinha, das vacas e dos bodes. Fizeram pequenas inúmeras covas na profundidade de um punho, com três palmos de distância de cada uma, e Djeli falou:

— Pronto! Espere aqui só um momento enquanto vou pegar as Três Irmãs.

Então, o velho caminhou até a casa e voltou com três sacos de pano, e disse:

— Aqui estão elas. — Mostrando os sacos para N’zambi, e continuou a dizer:

— Aqui há três tipos de sementes. Abóbora, feijão e milho. Elas são chamadas de Três Irmãs, pois, quando são plantadas juntas, uma ajuda e cuida da outra. Além de ambas gostarem do mesmo solo, clima e tempo. Foram graças a essas três sementes, que a vida social do homem se desenvolveu sobre esta terra, que os colonos europeus chamam de Novo Mundo. Assim, com a fartura do milho, do feijão e da abóbora, os povos nativos habitantes das florestas deixaram de lado suas vidas nômades de caçadores e se fixaram na terra. Criando suas primeiras comunidades de assentamento, na construção de melhores habitações para os seus repousos. Nisso, eles obtiveram mais tempo para pensar, refletir, analisar, imaginar, e assim criar. Depois que plantavam as Três Irmãs, restavam-lhes muito tempo até a colheita. E durante esse tempo em que eles precisaram habitar juntos as suas plantações, para dar-lhes a devida manutenção e proteção, começaram a observar o ambiente em que estavam assentados e prestaram muita atenção em como os animais e insetos se comportavam. Viram como os pássaros faziam os seus ninhos, nos entrelaçamentos dos pequenos galhos e cipós. Viram como os insetos e outras pequenas aves construíam suas habitações com o solo, umedecendo-os com as suas salivas. E, a partir dessas observações, meditando e estudando a natureza de todas as coisas, puderam, também, recriar coisas para facilitar as suas vidas, em suas novas habitações. Que agora não mais serviam só para o repouso. Mas se tornaram os seus lares fixos. E esses lares fixos se tornaram as suas moradas, sendo o corpo dos seus corpos, entendido como o segundo corpo. Devido a isso, eles inventaram muitos objetos e ferramentas para as suas variadas necessidades. Aprenderam com os insetos a trabalhar a arte do barro, construindo inúmeros utensílios de cerâmica. Desenvolveram estudando com as lagartas e aranhas a tecelagem, para fazerem suas vestimentas. E, assim como os pássaros, deram utilidades às palhas e aos cipós, para construírem as suas diversas cestarias, facilitando, dessa forma, o transporte dos seus insumos alimentares. E, quando viram que suas vidas se tornaram mais fáceis e comunais, pelo trabalho comunitário em suas novas sociedades de assentamento, tinham tempo de olhar para a natureza e para o universo de uma nova forma, e de uma nova maneira. Pois eles se transformaram em seres pensantes, imaginativos e criativos apenas com a observação do meio ambiente em que se assentaram. Meditando em todo trabalho de sobrevivência em que se empenhavam as inúmeras e pequenas criaturas que os envolviam. E começaram a questionar: Como o universo e a natureza são tão perfeitos e abundantes? E como tudo isso funciona? E quem é o responsável pela criação, desenvolvimento, inteligência e manutenção de todas essas coisas existentes? E, assim, essas primeiras sociedades de assentamento desenvolveram as suas primeiras cerimônias e ritos religiosos, na busca das muitas respostas e soluções que eles desconheciam, por terem tempo de admirarem o absoluto e o imenso de todas as coisas naturais e universais. E o milho e o feijão eram secados e armazenados por longos períodos, enquanto as abóboras eram utilizadas para fazer caldos e sopas. Suprindo as necessidades alimentícias desses primeiros povos de assentamento, durante as estações chuvosas e frias. E, por consequência, os nascimentos aumentaram, e a vida pululou e se prolongou por essas terras.

Djeli retirou as sementes dos sacos, despejou dentro de uma cuia e disse:

— Para cada cova temos que colocar três sementes de milho e duas de feijão. Já da abóbora colocamos apenas uma semente.

Explicava ele enquanto fazia, e continuou a dizer:

— O milho precisa de três sementes. Pois há poucas sementes fortes no meio de todas essas sementes. Sendo assim, pelo menos em cada cova teremos de um a dois pés de milho extremamente fortes. Agora do feijão colocaremos apenas duas sementes, para garantir que vai ter, pelo menos, um pé de feijão em cada cova. Geralmente o feijão é forte, e raramente a semente não vingará. Já da abóbora não precisamos de muitos pés, pois ela predomina por todo o solo. Por isso, é aconselhável colocar uma semente em cada cova, ou em intervalos de uma a duas covas, e as que vingarem já servirão.

Juntos colocaram as sementes dentro das covas, fecharam com terra, e Djeli deitou por cima do solo semeado uma camada fina de folhas verdes das árvores, que ao secarem umedeceriam o solo pelo fato de elas conterem água, e também serviam para não deixar o solo exposto diretamente ao vento e ao sol, evitando a perda de água por evaporação, climatizando as leiras para abarcar os diversos organismos que adubam o solo, deixando-o vivo e saudável.

Depois de todo o trabalho, o sol já estava ardente e o calor do meio-dia se tornara um pouco insuportável para ambos. Caminharam até a casa e se sentaram numa parte coberta do quintal. Djeli pegou dois copos de barro e retirou água de uma moringa que se encontrava ali por perto. Deu um copo de água fresca a N’zambi, e juntos se sentaram em um grande banco de madeira, que estava encostado na parede de barro da casa de taipa e adobe. E Djeli falou:

— É lindo ver as Três Irmãs crescerem juntas. O milho é a primeira semente a romper sua cápsula e quebrar a terra acima. Logo depois vem o feijão, e em seguinte a abóbora. O milho crescerá em linha reta como um bastão. Ele sugará toda a força do solo, o deixando fraco e sem nutrientes, e logo suas raízes ficarão expostas ao sol, o que tornaria a planta frágil. E se não fosse ajudada pelas suas duas irmãs, o feijão e a abóbora, logo o milho morreria sem dar muitos frutos, sendo que exigiria do agricultor um segundo arremate de terra e adubo para que a plantação não fracassasse. Mas, com essa técnica, que aprendi com dois nativos tawantinsuyu que se refugiaram aqui no k’ilombo, obtive bons resultados nas colheitas, especialmente as do milho. O feijão, ele crescerá usando o pé de milho como haste, e em troca devolverá à terra todo nutriente que o milho retirou. Também o ajudará em sua polinização. Pois o feijão, ao crescer subindo pelas hastes do milho, chegará até a antera, que é a flor masculina que fica no topo da planta. Então, com o seu peso e o dançar contínuo do seu crescimento, o feijão envergará a antera, que liberará o seu pólen para cair sobre os cabelos das jovens espigas das outras plantas de milho, e assim fertilizarem-se. Pois cada cabelo da espiga de milho corresponde a um grão de milho na espiga. Sendo que o pólen da antera de uma planta tem que cair sobre toda a cabeleira da espiga da outra planta. Só assim teremos espigas com grãos completos, fartos e sadios. A abóbora, com suas longas folhas rasteiras, protegerá o solo e as raízes do milho contra a luz solar e o vento rasteiro. Além de eliminar outras pequenas plantas roubadoras de nutrientes da roça, como o capim-bravo. E assim, meu jovem, teremos milhos saudáveis com espigas grandes, além de feijão e abóbora, sem precisar dar muita atenção à plantação. Assim, as três irmãs se completam e nos ensinam que a união das diferenças é a chave para toda bonança e prosperidade de uma nação. Porque, como já te falei antes, onde dois ou três diferentes estiverem reunidos para um só intento, nada lhes será impossível.”

Resenha do Livro: O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA — A incrível saga do Quilombo dos Palmares no Novo Mundo

Fonte: Medium.com

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