O estudo desse tema pode ser uma chave para entendermos como é possível e existência do cafeeiro e o seu cultivo permanente em Curitiba. E, muito mais que isso, esse estudo, cujos resultados já temos diante de nós (COM O EXEMPLO DO QUINTAL AGROFLORESTAL NO BAIRRO BOM RETIRO), é a possibilidade de pôr em questão o sistema e os princípios vigentes para a cafeicultura e agricultura de um modo geral.

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Quintal agroflorestal em Curitiba

  • O texto que segue é um excerto de “Composição, Estrutura e Função de Quintais Agroflorestais no município de Mazagão Amapá.” Tese de doutorado de Aderaldo Batista Gazel Filho.

“Com a preocupação com sustentabilidade que se desenvolveu nas duas últimas décadas, vários pesquisadores voltaram sua atenção para tais quintais.”

REVISÃO DE LITERATURA.

2.1 DEFINIÇÃO E IMPORTÂNCIA DO QUINTAL AGROFLORESTAL

Os quintais agroflorestais são sistemas de manejo tradicionais nos trópicos e considerados como sistemas sustentáveis ao longo dos anos, pois oferecem uma série de produtos e/ou serviços, diminuindo de forma considerável os gastos da família para obtê-los fora da propriedade (MENDEZ, 2000; KHATOUNIAN, 2002, WAZEL; BENDER, 2003, ALAM; MASUM, 2005; PEYRE et. al., 2006; CARVALHO et. al., 2007). Os sistemas de cultivos agrícolas nos trópicos úmidos mostraram-se como danosos a estes frágeis ecossistemas, além de não contribuírem para suavizar a pobreza rural. Nesse contexto, o conhecimento de sistemas sustentáveis é uma necessidade imperiosa. Mendez, 1996a (pg.36) apresenta a seguinte definição de quintal agroflorestal, adaptada de Fernandes & Nair (1986):

“Os quintais agroflorestais são sistemas de uso da terra nos quais há um manejo deliberado de árvores de uso múltiplo e arbustos em associações íntimas com cultivos e plantas herbáceas, ocasionalmente com animais, tudo incluído no composto residencial e manejado principalmente por mão-de-obra familiar.” Esse agroecossistema é um dos sistemas agroflorestais mais antigos e conhecidos nas regiões tropicais e é citado como sustentável por vários estudos (PRICE, 1983; PADOCH et al., 1985; PRICE, 1989; GÓMEZ-POMPA; KAUS, 1990; BUDOWSKI, 1990; JOSE;SHANMUGARATAN, 1993; MÉNDEZ, 1993; MENDEZ, 2000; KHATOUNIAN, 2002, WAZEL; BENDER, 2003, ALAM; MASUM, 2005; PEYRE et. al., 2006; CARVALHO et. al., 2007). Uma das características dos quintais agroflorestais é sua complexidade, apresentando múltiplos estratos, incluindo muitas formas de vida, desde plantas trepadeiras, árvores, cultivos rasteiros e algumas vezes animais (MONTAGNINI, 1992). Os SAFs constituem uma modalidade viável de uso e manejo da terra, segundo o princípio do rendimento sustentado. Os sistemas de quintais agroflorestais constituem, sobretudo em práticas já utilizadas tradicionalmente em muitas regiões sob condições econômicas, sociais e ecológicas diversificadas. Este sistema permite aumentar a produção total ou de uma maneira escalonada no tempo e no espaço, através da integração de espécies florestais com espécies agrícolas e/ou criações, aplicando práticas de manejo compatíveis com os padrões culturais da população local, de modo que haja interação entre os elementos que compõem o sistema (DRESCHER, 1997; NAIR, 2001; KHATOUNIAN, 2002; KEHLENBECK; MAASS, 2004; DAS; DAS, 2005; PEYRE et al., 2006). Quanto ao amplo uso e importância dos quintais ao redor do mundo, Khatounian, 2002, faz a seguinte afirmação:

“De fato, mais tarde, vim a aprender que quintais semelhantes aos nossos são encontrados em toda a faixa tropical úmida do planeta e que em inglês recebem o nome de tropical agroforestry home gardens. Tendo até nome em inglês já passaram a ser mais importantes. Tais home gardens são altamente complexos na Indonésia e especialmente na Índia, onde atingem o ápice no estado de Kerala. Com a preocupação com sustentabilidade que se desenvolveu nas duas últimas décadas, vários pesquisadores voltaram sua atenção para tais quintais. Sua ampla distribuição deveria estar indicando alguma coisa.” Gliessman (2001a) indica que as árvores em um quintal agroflorestal – e a forma como são manejadas – tornam possível grande parte da diversidade e complexidade do sistema, bem como o funcionamento eficiente do quintal. Segundo o autor, o dióxido de carbono retido entre as camadas do dossel pode ser capaz de estimular a atividade fotossintética e as próprias camadas podem aumentar a diversidade de habitats para pássaros e insetos úteis na manutenção do controle biológico do sistema. Também relata que as raízes das árvores evitam que os nutrientes sejam lixiviados para fora do sistema e os detritos de folhas das árvores reciclam nutrientes de volta para o próprio sistema. O manejo adequado da terra implica em efeitos sociais positivos, pela geração de renda e pela melhoria qualidade de vida das populações. O manejo ambiental é saber articular corretamente o equilíbrio ecológico com as necessidades de um grupo humano que necessita reproduzir seus meios de vida e elevar o nível de bem-estar (DOMINGUEZ, 1989). No que concerne à questão ambiental deve-se ressaltar que na natureza todas as espécies de plantas e animais são importantes e úteis, pois cada um contribui para o equilíbrio ecológico. Várias são as utilidades das plantas para o homem, entre elas, pode-se destacar:

(i)na alimentação, principalmente através de seus frutos e sementes;

(ii) na alimentação de outros animais, como bois, cabras, principalmente com suas folhas e frutos;

(iii) como sobra para outras plantas e para animais e homens, quando são árvores;

(iv) das espécies adeiráveis é possível se construir casas, fabricar móveis e ferramentas e também produzir carvão e lenha;

(v) as flores servem para embelezar vários ambientes e;

(vi) com folhas, cascas ou raízes podem-se fazer chás que em sua maioria, ajudam a curar várias doenças (GALDINO JR. et al, 2003).

Outro uso comum dos quintais em alguns lugares é ser o mesmo abrigo de animais. Famílias que criam animais usam parcelas do quintal como lugar para guardar esses animais, também de dia ou somente à noite depois de retornarem do pastoreio. Os quintais servem não como uma fonte de alimentos aos animais, mas principalmente como abrigo. Um estudo com quintais em Karnataka (Índia) encontrou que 93% dos agricultores que tem rebanhos alojam seus animais exclusivamente em parcelas do quintal (FAO, 2007). Méndez (2000), revisando vários autores, aponta as seguintes vantagens dos quintais agroflorestais em relação a outros sistemas de uso da terra:

• Ofertam uma diversidade de produtos e benefícios ao longo do ano todo,

• Alta diversidade de plantas, principalmente para uso humano, com arranjo similar às florestas naturais,

• Eficiência no ciclo de nutrientes,

• Redução do uso de insumos externos sintéticos,

• Manejo baseado no conhecimento ecológico desenvolvido localmente, e

• Reduzido impacto no meio ambiente.

Costantin e Vieira (2004) citam como características gerais dos quintais sejam eles urbanos ou rurais:

a) produção de alimentos para o consumo familiar;

b) criação de pequenos animais;

c) local para adaptação de variedades ou espécies novas de plantas;

d) a produção de matéria prima para o artesanato;

e) produção de plantas medicinais e ornamentais;

f) local de beneficiamento de produtos agrícolas produzidos em outras áreas da propriedade;

g) espaço de convivência agradável e recreação. Além disso, apontam ainda que, através de sua diversidade, garantem a segurança alimentar da família.

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2.2 QUINTAIS AGROFLORESTAIS E SUSTENTABILIDADE

A sustentabilidade dos quintais agroflorestais é apontada como uma de suas principais características. Entretanto, poucos trabalhos apresentam resultados sistematizados de pesquisas concernentes a esse tema. Um dos trabalhos mais representativos e muito utilizado como referência em outros artigos foi o conduzido por Torquebiau (1992), no qual o autor buscou informações na literatura científica, avaliou dados de diversos estudos e testou vários descritores de sustentabilidade, cada um deles com uma série de indicadores empíricos. O autor concluiu que os quintais apresentam características de agroecossistemas sustentáveis, tais como:

(1)conservação da fertilidade do solo e controle da erosão;

(2) modificação do microclima;

(3) produção uniforme e diversificada durante todo o ano;

(4) “uso de insumos endógenos”;

(5) manejo flexível;

(6) diversos papéis sociais; e

(7) impacto limitado em outros sistemas.

Seguindo a mesma linha de pesquisa, Landauer e Brazil (1990) publicaram resultados de uma conferência internacional sobre quintais. Um capítulo de relevante importância é o estudo realizado por Michon e Mary (1990), no qual os autores descreveram as mudanças na estrutura e composição das espécies, em quatro quintais em Java e Sumatra, que ocorrem em respostas às pressões sócio-econômicas e demográficas no local. Eles reportam que a expansão de centros urbanos conduziu a uma abertura do mercado para produtos que não eram tradicionalmente cultivados nos quintais. Em um trabalho clássico sobre uma base para estabelecer indicadores de sustentabilidade para agricultura e recursos naturais, Camino e Muller (1993) indicaram que a quantidade ideal de indicadores encontra-se entre seis e oito para sistemas genéricos. Entretanto, Daniel et al. (2000) relataram que Torquebiau (1989) trabalhando apenas com quintais agroflorestais obteve 24 indicadores. Exemplos de indicadores de sustentabilidade podem estar relacionados a vários aspectos tanto no campo ambiental, quanto no campo biofísico e socioeconômico, dentre os quais estão o comportamento do componente, produção de biomassa, dinâmica da serrapilheira e o aporte de nutrientes. A esse respeito, Ewel et al. (1982) estudaram nove ecossistemas tropicais distintos e extraíram que um quintal agroflorestal com idade de 40 anos é um sistema ecologicamente eficiente, especialmente na sua habilidade de captar luz, acumular nutrientes nas camadas superiores do solo, armazenar nutrientes na biomassa acima da superfície e reduzir o impacto da chuva e do sol no solo. Gajaseni e Gajaseni (1999) apresentaram também estudos baseados em cinco indicadores de sustentabilidade ecológica:

(1) base de conhecimento local desenvolvido,

(2) estrutura física,

(3) diversidade biológica,

(4) ciclo de nutrientes, e

(5) microambiente em comparação ao ambiente e ao do quintal (temperatura do ar e do solo e umidade relativa).

Com relação à conservação do solo, ciclagem de nutrientes e diversidade, inúmeros critérios poderiam auxiliar na avaliação dos níveis de sustentabilidade em diferentes realidades. Alam e Masum (2005) afirmam que os méritos ecológicos dos quintais são aspectos de conservação do solo, água, nutrientes e biodiversidade. Em Java, Jensen (1993a) estudou as características de solo de quintais por oito anos. O autor reforça a importância dos quintais como agroecossistemas de baixos insumos, que podem estabilizar terras inclinadas e contribuir para a conservação de solo e água. Jensen (1993b) ao analisar a produtividade e o ciclo de nutrientes em alguns quintais extrai argumentos conclusivos sobre o eficiente ciclo de nutrientes observado nos quintais, o que permite a produção sem o uso de fertilizantes e pesticidas em tais áreas. Gajaseni e Gajaseni (1999) afirmam que a reciclagem de nutrientes é a principal determinante para a racionalidade ecológica dos quintais agroflorestais e, que em alguns tipos de quintais os proprietários são refratário em colher tudo o que pode ser colhido garantindo uma exportação mínima de nutrientes do sistema.

No que tange à diversidade, Allison (1983) observou que tanto em áreas pequenas (0,3 e 0,7 ha), como em locais de terras altas e baixas, a alta diversidade permitiu a manutenção de quintais que, em muitos aspectos, eram similares aos ecossistemas naturais locais e apresentaram índices relativamente altos de diversidade para sistemas de cultivos. José e Shanmugaratnam (1993) descrevem os quintais de Kerala como tendo uma estrutura cronológica e características similares àquelas das florestas tropicais. Machado et. al., 2005 estudando seis sistemas agroflorestais no interior da Bahia, encontraram que os sistemas mais diversificados apresentaram maiores teores de matéria orgânica, creditando os autores tal fato como resposta à composição das diferentes espécies, as quais com suas peculiaridades fenológicas e com tempo de decomposição distinto propiciam maior acumulação de matéria orgânica.

O fator umidade também pode ser considerado como um indicador de sustentabilidade dos agroecossistemas. A esse respeito Carvalho et al. (2007) estudando alguns sistemas de cultivo no recôncavo baiano encontraram que os solos sob vegetação de quintais apresentaram um teor médio de umidade de 15,66%, enquanto que os cultivos monotípicos apresentaram o valor de 12,14%. Os autores atribuem essa diferença a três fatores:

a) cobertura viva do solo,

b) maior teor de matéria orgânica, e

c) e à presença da serrapilheira nos solos dos quintais.

O fechamento do dossel em uma ou mais camadas mantém um nível relativamente constante da umidade e de temperatura ao nível do solo, o que reduz o stress hídrico nos períodos de baixa precipitação e mantém a produção (TROPICAL FOREST GARDEN, 2007).”

Fonte: Wild Brew

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